Nos últimos meses, a discussão sobre o ENAMED ganhou força, e eu acho que tem uma leitura que importa muito para quem trabalha com Marketing e Educação Médica na Indústria Farmacêutica.
Não é sobre mais uma prova.
É sobre o que ela sinaliza: o sistema está formando médicos com níveis muito diferentes de competência clínica, e isso se choca com um cenário onde as vagas de residência seguem limitadas.
O resultado prático é um duplo gargalo:
1) Nem todo médico recém-formado consegue entrar na residência, e não é só por falta de vaga importância da Educação Médica Continuada no cenário atual
Sim, há restrição de vagas, principalmente em algumas especialidades e regiões.
Mas existe outro filtro silencioso: desempenho e prontidão.
Uma parte relevante dos concluintes não atinge o nível mínimo esperado de proficiência. Isso significa que, para muitos, o caminho até a residência não é apenas concorrência, é lacuna de competência.
E isso tem implicações enormes para o sistema.
2) E quem entra… muitas vezes entra sem estar pronto para o ritmo do R1.
Aqui tem um ponto sensível, mas necessário:
Residência é ambiente de alta exigência, alta carga assistencial e tomada de decisão real.
Quando o residente chega com lacunas importantes, quem sofre é:
- o próprio residente (sobrecarga, insegurança, estresse);
- o preceptor (que vira “nivelador” além de supervisor);
- o serviço (com impacto direto em qualidade e segurança);
- e, no limite, o paciente.
Ou seja: a residência está sendo pressionada a cumprir duas funções ao mesmo tempo:
- formar especialistas;
- corrigir déficits de base que deveriam vir resolvidos da graduação.
A oportunidade (real) para a Indústria Farma é investir em infraestrutura educacional, não em ações.
É aqui que eu vejo um espaço enorme de contribuição e geração de valor.
Porque, se a formação está mais heterogênea, o sistema vai precisar cada vez mais de:
✅ Programas de nivelamento para R1 (com foco em segurança).
Bootcamps de competências mínimas: raciocínio clínico, condutas sindrômicas, prescrição segura, protocolos, farmacovigilância, urgências prevalentes.
✅ Trilhas de aprendizagem do guideline à prática.
Conteúdo curto, aplicado, com caso clínico e decisão, no ritmo da assistência, não no ritmo do auditório.
✅ Apoio real à preceptoria.
Ferramentas, métodos e materiais para preceptores: rubricas, roteiros de discussão, banco de casos, avaliação prática e feedback.
E tem um detalhe que muda tudo: isso precisa ser mensurável.
Educação sem métrica vira percepção. Educação com métrica vira prioridade.
Minha reflexão para o Marketing Farma:
Se antes educação médica era muitas vezes tratada como ação de relacionamento, talvez agora seja hora de tratar como infraestrutura do ecossistema.
Porque o que está em jogo não é só imagem de marca.
É a capacidade do sistema de formar, com segurança e consistência, o médico que vai decidir na linha de frente.
E eu acredito que a Indústria Farma pode ocupar um lugar importante aqui, desde que com:
- governança científica;
- transparência;
- foco em competência;
- e separação clara entre educação e promoção.
O Enamed tirou a venda dos nossos olhos. A pergunta para os líderes do setor agora é:
Que lacuna de prontidão eu ajudo a fechar, e como eu provo isso com dados?
Quem tiver a visão estratégica para apoiar os preceptores e residente hoje, terá uma construção de marca ainda melhor?
Vamos discutir caminhos?



